Aula passada falou do que sustenta convívio bom — cinco coisas que dependem de você. Igualmente importante: saber o que não depende.
Tem coisas que ficam fora da sua mão por completo. Aceitar isso, em vez de brigar contra, é o que diferencia profissional maduro de profissional ressentido.
As coisas que estão fora da sua mão
1. O ritmo do colega
Cada pessoa tem seu jeito de trabalhar. Tem quem é rápido, tem quem é metódico. Tem quem fala muito, tem quem fala pouco. Tem quem chega às 7h cheio de energia, tem quem demora pra "acordar" e rende mais à tarde.
Você não muda o ritmo do outro. Pode comentar uma vez se atrapalha o trabalho. Mas o jeito de trabalhar é dele — e na maioria dos casos, é só diferente, não errado.
Quem fica brigando com o ritmo do colega gasta energia em coisa que nunca vai mudar.
2. O humor do dono
Voltando ao princípio do módulo 1: a empresa não é o dono. Mas o dono está lá, e tem dia bom, dia ruim, dia silencioso, dia explosivo.
O humor dele não depende de você. Você pode até ter contribuído (ou não), mas o humor é dele — vem de coisa que aconteceu antes de você chegar, ou de coisa que aconteceu fora do trabalho.
Levar pra pessoal o humor do dono é se desgastar com algo que ele mesmo, na maioria das vezes, vai esquecer no dia seguinte.
3. O jeito do cliente
O cliente chega como ele é. Educado, rude, calmo, apressado, agradecido, reclamão. Você atende bem, mas o jeito que ele chega não depende de você — depende do dia dele, da vida dele, do trânsito que ele pegou pra chegar lá.
Quem leva pra pessoal cada cliente difícil não dura nessa profissão. Quem entende que o jeito do cliente é dele atende bem e segue.
4. Decisão pessoal de quem decide
Em PME, várias decisões são subjetivas — escala, divisão de tarefa, prioridade do dia, quem cobre quem. Quem decide é o dono ou o supervisor, e nem sempre você concorda.
Algumas decisões fazem sentido pra eles por motivos que você não vê. Outras são erradas. Mas em ambos os casos, a decisão não tá na sua mão. Você pode dar opinião quando perguntam (ou pedir pra ser ouvido com bom senso), mas a decisão final é deles.
Brigar com decisão tomada — depois que ela já foi tomada — é desgaste sem retorno.
5. Coisas que aconteceram antes de você chegar
Tem atritos antigos no time, tem mágoa entre colegas, tem história de algo que deu errado há dois anos. Você chegou depois. E mesmo que você seja o melhor profissional do mundo, as coisas antigas seguem ali, e às vezes respingam em você.
Você não consegue resolver o que aconteceu antes. Pode escutar, pode não tomar partido, pode tentar não alimentar. Mas a história que veio antes não depende de você.
O que fazer com o que não depende de você
Existem três posturas possíveis:
Postura 1 — Negar (postura ruim)
"Vou conseguir mudar mesmo assim, vou insistir, vou provar pra todo mundo." Você bate cabeça contra parede. Energia desperdiçada, frustração crescendo, e o resultado não muda.
Quem briga com o ritmo do colega há dois anos continua brigando — e o ritmo continua o mesmo.
Postura 2 — Aceitar passivamente (postura ruim também)
"Aqui é assim mesmo, não adianta nem tentar." Você usa o que não depende como desculpa pra abandonar o que depende. Para de cuidar do convívio bom, do tratamento constante, da escuta — porque "o ambiente já é ruim mesmo".
Acaba estacionado por desânimo disfarçado de realismo.
Postura 3 — Aceitar ativamente (postura madura)
"Tem coisa que depende de mim — essas eu cuido. Tem coisa que não depende — essas eu reconheço sem brigar, e ajusto como eu reajo."
Aceitar ativamente é diferente de aceitar passivamente. Você continua fazendo sua parte. Mas reconhece o que tá fora, e ajusta a postura:
- Ritmo diferente do colega? Você organiza o seu trabalho de jeito que não dependa do tempo dele
- Humor do dono ruim hoje? Você não leva pra pessoal e cuida do que tá na sua mão
- Cliente difícil? Você atende com profissionalismo, fecha o atendimento, e respira
- Decisão de chefia que você não concorda? Você manifesta uma vez se for o caso, e segue executando
- História antiga do time? Você escuta sem alimentar, não toma partido, segue construindo seu próprio convívio
A postura madura continua agindo sobre o que depende, sem se desgastar com o que não depende.
A pergunta que ajuda
Quando bater frustração no trabalho, pergunta:
"Isso depende de mim ou não depende?"
- Depende → faz alguma coisa concreta agora.
- Não depende → para de gastar energia mental com isso, ajusta o que dá pra ajustar, e segue.
A clareza dessa separação salva muita energia. Tem gente que passa anos brigando com o jeito do colega, com o humor do dono, com decisão antiga — e quando finalmente solta, fica chocada com quanta energia tinha pra outras coisas.
"Mas é injusto"
Pode ser. Algumas coisas que não dependem de você são injustas. Decisão tomada por motivo errado, ritmo do colega que sobrecarrega o seu, humor do dono que respinga em todo mundo.
Reconhecer que é injusto não muda o que aconteceu. E não muda o que vai acontecer se você ficar parado.
A maturidade aqui é separar lamentar (que é ok, com limite de tempo, com pessoa de confiança fora do trabalho) de agir (que precisa começar logo, sobre o que ainda depende de você).
Pontos-chave
- Tem coisas que dependem de você (aula 2) e tem coisas que não dependem. Saber a diferença é o que diferencia maduro de ressentido.
- Não dependem: ritmo do colega, humor do dono, jeito do cliente, decisão pessoal de quem decide, coisas que aconteceram antes de você chegar.
- Três posturas: negar (bate cabeça), aceitar passivamente (estacionar), aceitar ativamente (continuar agindo sobre o que depende, ajustar postura sobre o que não depende).
- Pergunta-chave: "isso depende de mim ou não depende?"
- Algumas coisas são injustas. Reconhecer não muda o que aconteceu — e não muda o que vai acontecer se você não agir sobre o que ainda depende.